Um pequeno excerto do livro “Preciso de Ti - Perturbações psicossociais em Crianças e Adolescentes” de Pedro Strecht.
A vida nem sempre é justa. As crianças não nascem iguais em direitos. Mas não podemos desistir de contrariar uma certa ordem das coisas, bater à porta dos corações e perguntar sem medo: pode-se entrar? Indignarmo-nos sempre que for preciso. Lutar.
O mundo que queria aqui era não só a alegria da vida ou a sorte de ter pais, o que queria aqui era a mudança de alguns solos, as cores inflamadas das bocas sem voz, dos olhos sem vista. Letras de mãos dadas a escreverem destinos de mais harmonia. Preciso de ti.
Este é um livro sobre perturbações psicossociais em crianças e adolescentes. É feito de histórias de muitos que viveram perdidos o tempo da infância. Nunca crianças, ainda crianças, dir-se-ia. Por isso, transporta dor, desamparo, perda, confusão, escuro, revolta. Mas nas mesmas linhas existe simplicidade, humildade, grandeza, coragem, lições de vida que todas estas vidas ensinam. O lado em todos nós tocados para que continue indiferente.
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É que, ironicamente, esta expressão patológica contém em si mesmo a eficácia de um S.O.S., num apelo para todos de valer a pena parar para pensar. Por isso, este livro é também um convite a uma reflexão forte sobre as raízes dos problemas, numa expressão de esperança dos que esquecemos, da força dos que ignoramos, das vozes que chamam: Preciso de ti.
Lembra-te de mim, parecem eles dizer.
As ruas podem mudar, mas estou lá. Lembra-te. Puxa o Sol para perto, ilumina todos os silêncios. De mim, de mim. Lembra-te, lembras? Passa um «spot» televisivo em horário nobre. Faz qualquer coisa por mim. Que não esqueçam. Estou aqui. Acende uma vela à tua janela se faltar alguém. Sou eu. Jura. Toca todos os sinos a rebate.
Ainda tenho o mesmo sorriso, parecem eles dizer. Preciso de ti.

É um caderno de linhas aberto, calmamente esperando movimentos compassados do lápis a desenhar letras, palavras, números, contas… Aprender é isso, mas felizmente que a vida é muito mais. Há coisas que se aprendem tão bem sem quase ninguém ter que ensinar e tanta coisa que se ensina que quase ninguém aprende. Ainda bem que há sempre uma certa ironia aliada da verdade, um escrever direito sobre linhas tortas, um acertar que segura e confirma, um falhar que descobre e alerta, um mal estar que lembra e desperta.
Há uma mensagem que se resume a isto: descobrir de novo a simplicidade esquecida das coisas, a harmonia secular do bom senso e, em caso de dúvida, «sê sempre tu próprio!»
O verdadeiro ensino não está só nos manuais, não se aprende soletrado em dez lições, não se compra estafado na encomenda de ocasião, nunca chega por decreto (quanto a isso, nunca). Mais força que todas as leis tem o homem e dentro dele as crianças: o poder de inverter a certeza de alguns movimentos, muitas vezes antes que o sol feche o seu círculo no céu, o contrário de uma certa tendência para pensarmos demasiado em nós próprios, o secreto entender que de altos e baixos se faz a tranquilidade.
Antes que as crianças sejam velhas demais para verem sozinhas o que há para ver ensinemos-lhes ternamente a Vida, a maior das sabedorias.
Do livro “Preciso de Ti - Perturbações psicossociais em Crianças e Adolescentes” de Pedro Strecht
